sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sesão de cinema - O menino do pijama listrado.

O FILME
O Menino do Pijama Listrado se passa em 1940 e tem início quando um menino de oito anos, Bruno, recebe a notícia de que terá que deixar sua confortável casa em Berlim e se mudar com a família para um lugar isolado, no campo. O motivo é a promoção de seu pai, um oficial nazista, que para ele é apenas um soldado. Bruno mora no que considera a casa perfeita, vai à escola, tem amigos e tudo que pode pedir. Uma mudança não estava nos planos do garoto que pretende ser explorador.
Logo que chega à nova casa, pela janela de seu quarto, consegue avistar uma grande fazenda, onde adultos e crianças passam o dia todo vestidos com pijamas listrados. Essa fazenda que ele avista do quarto passa a ser a possibilidade que ele tem de alterar a rotina solitária do lugar e arranjar alguém para brincar. No lugar não tem nada para fazer.
Bruno pergunta à mãe sobre as pessoas estranhas da fazenda, que andam sempre de “pijamas listrados” e é proibido de ir lá, mas seu instinto explorador fala mais alto e o garoto “descobre” um caminho. E lá ele conhece Shmuel, que também tem oito anos, mas vive do outro lado da cerca e forma uma improvável amizade com o menino judeu. Bruno não sabe o porquê de o garoto estar lá.
As visitas ficam cada vez mais freqüentes e, curioso, ele passa a perguntar a seus pais e à sua irmã o que é esse lugar e quem são aquelas pessoas, mas as respostas, ora evasivas, ora negativas, não têm nada a ver com o que seu coração lhe diz.
O local não tem nada de belo e de alegre como ele vê nos vídeos mostrados a seu pai, e o menino judeu não se parece em nada com o monstro desenhado por todos. Então por que ele tem que ser inimigo? Essa é uma das coisas que Bruno não consegue entender. Mas se o amigo Shmuel não pode vir para o lado de cá da cerca, por motivos que ele também não compreende, então talvez seja mais fácil que ele mesmo passe para o lado de lá.
Shmuel (Jack Scanlon), que na metáfora mais óbvia, é um duplo de Bruno, menino da mesma idade que vive do outro lado da cerca que demarca o problema. Ali eles estabelecem essa relação como reflexo num espelho quebrado, em que de um lado existe o arquétipo pronto da vida no quadrante correto, e no outro a expressão de todos os problemas desse quadrante expostos em cada detalhe: no dente cariado, no cabelo raspado, em tudo o tal menino do pijama listrado é o mesmo que Bruno, só que do lado errado da cerca.
O LIVRO
Quem leu o livro homônimo, escrito pelo irlandês John Boyne, em 2007, vai notar algumas diferenças em relação à história mostrada no filme, como a maneira gradativa com que a mãe percebe o absurdo que acontece à sua volta — no livro, desde o começo, ela parece não aceitar a situação –, a idade de Bruno — que tem nove anos no texto de Boyne– e como, no final, a família descobre sobre as visitas do garoto ao campo — na obra literária, eles nunca chegam a ter conhecimento do que realmente aconteceu. A pureza e a ingenuidade nas atitudes do menino enfatizam ainda mais o horror do nazismo, que acaba de uma maneira ou de outra, com a vida de todos.
O fato de o protagonista ser um menino  é o grande diferencial da história.  O tema já é pesado e a forma como ele é apresentado por meio desta trama já bastam para comover o público. Mas o que faz toda a diferença é a visão infantil do protagonista em relação a essa situação tão revoltante e trágica.
COMENTÁRIOS
A direção é clássica e a trilha sonora é bem presente. No fundo, a verdadeira força de O Menino do Pijama Listrado é a história que o longa se propõe a contar. O enfoque maior do filme talvez não seja necessariamente o episódio que narra, mas o tema maior da intolerância étnica que tem voltado a se tornar um problema tão sério que já não pode deixar de ser discutido.
Holocausto, segundo o dicionário Houaiss, é palavra utilizada pela primeira vez no século XIV e diz respeito a um sacrifício hebreu  que  consistia  em  queimar-se inteiramente a vítima.   Por  sua  vez  a  história  contemporânea tratou de ressignificá-la ao nomear a barbárie do extermínio judeu empreendido pelo fascismo hitlerista, fazendo alusão aos modos utilizados nesse assassinato em massa.
Filmes sobre o holocausto são complicados, pois, como tratam de um tema muito delicado, acabam gerando filmes que se transformam em pérolas, ou que acabam odiados e esquecidos. Sobre ele, temos os inesquecíveis: A Lista de Schindler, O Pianista e O Grande Ditador. Então qual o grande atrativo desse filme? O ponto de vista de uma criança inocente. É a inocência que permeia o enredo do filme e se torna a sua maior arma.
Durante o filme, O Menino do Pijama Listrado, o garoto Bruno começa a aprender sobre a ameaça que os judeus “representam”. Como são destruidores e um mal para a nação. Até assiste um vídeo sobre quão bela é a vida dos judeus nos campos de concentração e se confunde com a situação. Ele sabe que deve se manter longe do menino judeu, mas seu tutor diz que se encontrar um judeu bom, o menino seria o melhor explorador do mundo, o que só incentiva Bruno.
Cada conversa entre os dois meninos é de apertar o coração. A diferença entre eles e a forma como o judeu é maltratado incomodam na alma. E os elementos dos filmes que mostram os nazistas estão lá. O soldado cruel existe, mas são todos humanos e sempre sob a ótica de Bruno, que nunca consegue entender a magnitude da situação que está vivendo. Até o pai amoroso permanece impassível durante um espancamento de um judeu em frente de toda a família (afinal, como ele mesmo diz, “Judeus não são pessoas de verdade”). Apesar de toda a crueldade, o menino se torna fiel ao seu único amigo.
Apelando para o estreitamento desse laço de amizade, a ação carrega Bruno até o último limite da sua curiosidade: estar dentro da cerca com Shmuel. O final dele é previsível e existe uma espécie de letreiro de neon piscando desde o começo do filme, nos preparando e dizendo que esse final não é bom, tanto pra Bruno como para Shmuel, e a cena dos garotos se dando as mãos e finalmente apagando as supostas diferenças que os separam faz dos dois uma coisa só.
No livro um dos soldados achou a pilha de roupas e as botas que Bruno acomodara perto da cerca. O comandante descobre que naquele ponto a parte de baixo da cerca não estava tão bem fixada ao chão quanto nas demais e com as pernas bambas, acaba sentado no chão.
“E assim termina a história de Bruno e sua família. Claro que tudo isso aconteceu há muito tempo e nada parecido poderia acontecer de novo. Não na nossa época.”

 Galera, fórum no Unimestre sobre o filme: o menino do pijama listrado.
Vocês devem participar com argumentos e respeitando a opinião dos colegas.

domingo, 31 de maio de 2015

Pesquisa sobre memórias literárias e produção de texto: Atividade - valendo nota no 2º trimestre.

Galera, não teremos o vídeo na próxima aula.

Vocês devem fazer o combinado que é: trazer relatos, memórias literárias que devem pesquisar colhendo informações com as pessoas da família, fatos importantes, marcantes, histórias reais ou não, lembrando que as memórias ao longo tempo sofrem um processo de modificação, acabamos tirando aquilo que não queremos lembrar e acrescentando muitas vezes acontecimentos que talvez não tenha realmente acontecido.

Vocês precisam colher essas histórias com os mais experientes, tios, tias, avô, avó, pai, mãe, um irmão mais velho ou outra pessoa da família, passara para o papel. Devem colocar um título, não esqueçam que é uma narrativa e entregar manuscrito na próxima aula.

Precisa também colocar o nome completo do aluno e turma. É a nossa primeira atividade valendo nota no segundo trimestre.

Até lá!

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Texto 2 - Memórias de livros, de João Ubaldo Ribeiro.


Aracaju, a cidade onde nós morávamos no fim da década de 40, começo da de 50, era a orgulhosa capital de Sergipe, o menor estado brasileiro (mais ou menos do tamanho da Suíça). Essa distinção, contudo, não lhe tirava o caráter de cidade pequena, provinciana e calma, à boca de um rio e a pouca distância de praias muito bonitas. Sabíamos do mundo pelo rádio, pelos cinejornais que acompanhavam todos os filmes e pelas revistas nacionais. A televisão era tida por muitos como mentira de viajantes, só alguns loucos andavam de avião, comprávamos galinhas vivas e verduras trazidas à nossa porta nas costas de mulas, tínhamos grandes quintais e jardins, meninos não discutiam com adultos, mulheres não usavam calças compridas nem dirigiam automóveis e vivíamos tão longe de tudo que se dizia que, quando o mundo acabasse, só íamos saber uns cinco dias depois.
Mas vivíamos bem. Morávamos sempre em casarões enormes, de grandes portas, varandas e tetos altíssimos, e meu pai, que sempre gostou das últimas novidades tecnológicas, trazia para casa tudo quanto era tipo de geringonça moderna que aparecia. Fomos a primeira família da vizinhança a ter uma geladeira e recebemos visitas para examinar o impressionante armário branco que esfriava tudo. Quando surgiram os primeiros discos long play, já tínhamos a vitrola apropriada e meu pai comprava montanhas de gravações dos clássicos, que ele próprio se recusava a ouvir, mas nos obrigava a escutar e comentar.
Nada, porém, era como os livros. Toda a família sempre foi obsedada por livros e às vezes ainda arma brigas ferozes por causa de livros, entre acusações mútuas de furto ou apropriação indébita. Meu avô furtava livros de meu pai, meu pai furtava livros de meu avô, eu furtava livros de meu pai e minha irmã até hoje furta livros de todos nós. A maior casa onde moramos, mais ou menos a partir da época em que aprendi a ler, tinha uma sala reservada para a biblioteca e gabinete de meu pai, mas os livros não cabiam nela — na verdade, mal cabiam na casa. E, embora os interesses básicos dele fossem Direito e História, os livros eram sobre todos os assuntos e de todos os tipos. Até mesmo ciências ocultas, assunto que fascinava meu pai e fazia com que ele às vezes se trancasse na companhia de uns desenhos esotéricos, para depois sair e dirigir olhares magnéticos aos circunstantes, só que ninguém ligava e ele desistia temporariamente. Havia uns livros sobre hipnotismo e, depois de ler um deles, hipnotizei um peru que nos tinha sido dado para um Natal e, que, como jamais ninguém lembrou de assá-lo, passou a residir no quintal e, não sei por quê, era conhecido como Lúcio. Minha mãe se impressionou, porque, assim que comecei meus passes hipnóticos, Lúcio estacou, pareceu engolir em seco e fi cou paralisado, mas meu pai — talvez porque ele próprio nunca tenha conseguido hipnotizar nada, apesar de inúmeras tentativas — declarou que aquilo não tinha nada com hipnotismo, era porque Lúcio era na verdade uma perua e tinha pensado que eu era o peru.
Não sei bem dizer como aprendi a ler. A circulação entre os livros era livre (tinha que ser, pensando bem, porque eles estavam pela casa toda, inclusive na cozinha e no banheiro), de maneira que eu convivia com eles todas as horas do dia, a ponto de passar tempos enormes com um deles aberto no colo, fingindo que estava lendo e, na verdade, se não me trai a vã memória, de certa forma lendo, porque quando havia figuras, eu inventava as histórias que elas ilustravam e, ao olhar para as letras, tinha a sensação de que entendia nelas o que inventara. Segundo a crônica familiar, meu pai interpretava aquilo como uma grande sede de saber cruelmente insatisfeita e queria que eu aprendesse a ler já aos quatro anos, sendo demovido a muito custo, por uma pedagoga amiga nossa. Mas, depois que completei seis anos, ele não aguentou, fez um discurso dizendo que eu já conhecia todas as letras e agora era só uma questão de juntá-las e, além de tudo, ele não suportava mais ter um filho analfabeto. Em seguida, mandou que eu vestisse uma roupa de sair, foi comigo a uma livraria, comprou uma cartilha, uma tabuada e um caderno e me levou à casa de D. Gilete.
— D. Gilete — disse ele, apresentando-me a uma senhora de cabelos presos na nuca, óculos redondos e ar severo —, este rapaz já está um homem e ainda não sabe ler. Aplique as regras.
“Aplicar as regras”, soube eu muito depois, com um susto retardado, signifi cava, entre outras coisas, usar a palmatória para vencer qualquer manifestação de falta de empenho ou burrice por parte do aluno. Felizmente D. Gilete nunca precisou me aplicar as regras, mesmo porque eu de fato já conhecia a maior parte das letras e juntá-las me pareceu facílimo, de maneira que, quando voltei para casa nesse mesmo dia, já estava começando a poder ler. Fui a uma das estantes do corredor para selecionar um daqueles livrões com retratos de homens carrancudos e cenas de batalhas, mas meu pai apareceu subitamente à porta do gabinete, carregando uma pilha de mais de vinte livros infantis.
— Esses daí agora não — disse ele. — Primeiro estes, para treinar. Estas livrarias daqui são umas porcarias, só achei estes. Mas já encomendei mais, esses daí devem durar uns dias.
Duraram bem pouco, sim, porque de repente o mundo mudou e aquelas paredes cobertas de livros começaram a se tornar vivas, frequentadas por um número estonteante de maravilhas, escritas de todos os jeitos e capazes de me transportar a todos os cantos do mundo e a todos os tipos de vida possíveis. Um pouco febril às vezes, chegava a ler dois ou três livros num só dia, sem querer dormir e sem querer comer porque não me deixavam ler à mesa — e, pela primeira vez em muitas, minha mãe disse a meu pai que eu estava maluco, preocupação que até hoje volta e meia ela manifesta.
— Seu filho está doido — disse ela, de noite, na varanda, sem saber que eu estava escutando. — Ele não larga os livros. Hoje ele estava abrindo os livros daquela estante que vai cair para cheirar.
— Que é que tem isso? É normal, eu também cheiro muito os livros daquela estante. São livros velhos, alguns têm um cheiro ótimo.
— Ele ontem passou a tarde inteira lendo um dicionário.
— Normalíssimo. Eu também leio dicionários, distrai muito. Que dicionário ele estava lendo?
— O Lello.
— Ah, isso é que não pode. Ele tem que ler o Laudelino Freire, que é muito melhor. Eu vou ter uma conversa com esse rapaz, ele não entende nada de dicionários. Ele está cheirando os livros certos, mas lendo o dicionário errado, precisa de orientação.
Sim, tínhamos muitas conversas sobre livros. Durante toda a minha infância, havia dois tipos básicos de leitura lá em casa: a compulsória e a livre, esta última dividida em dois subtipos — a livre propriamente dita e a incerta. A compulsória variava conforme a disposição de meu pai. Havia a leitura em voz alta de poemas, trechos de peças de teatro e discursos clássicos, em que nossa dicção e entonação eram invariavelmente descritas como o pior desgosto que ele tinha na vida. Líamos Homero, Camões, Horácio, Jorge de Lima, Sófocles, Shakespeare, Euclides da Cunha, dezenas de outros. Muitas vezes não entendíamos nada do que líamos, mas gostávamos daquelas palavras sonoras, daqueles conflitos estranhos entre gente de nomes exóticos, e da expressão comovida de minha mãe, com pena de Antígona e torcendo por Heitor naIlíada. Depois de cada leitura, meu pai fazia sua palestra de rotina sobre nossa ignorância e, andando para cima e para baixo de pijama na varanda, dava uma aula grandiloquente sobre o assunto da leitura, ou sobre o autor do texto, aula esta a que os vizinhos muitas vezes vinham assistir. Também tínhamos os resumos — escritos ou orais — das leituras, as cópias (começadas quando ele, com grande escândalo, descobriu que eu não entendia direito o ponto e vírgula e me obrigou a copiar sermões do Padre Antônio Vieira, para aprender a usar o ponto e vírgula) e os trechos a decorar. No que certamente é um mistério para os psicanalistas, até hoje não só os sermões de Vieira como muitos desses autores forçados pela goela abaixo estão entre minhas leituras favoritas. (Em compensação, continuo ruim de ponto e vírgula.)
Mas o bom mesmo era a leitura livre, inclusive porque oferecia seus perigos. Meu pai usava uma técnica maquiavélica para me convencer a me interessar por certas leituras. A circulação entre os livros permanecia absolutamente livre, mas, de vez em quando, ele brandia um volume no ar e anunciava com veemência:
— Este não pode! Este está proibido! Arranco as orelhas do primeiro que chegar perto deste daqui!
O problema era que não só ele deixava o livro proibido bem à vista, no mesmo lugar de onde o tirara subitamente, como às vezes a proibição era para valer. A incerteza era inevitável e então tínhamos momentos de suspense arrasador (meu pai nunca arrancou as orelhas de ninguém, mas todo mundo achava que, se fosse por uma questão de princípios, ele arrancaria), nos quais lemos Nossa vida sexual do Dr. Fritz Kahn, Romeu e JulietaO livro de San MicheleCrônica escandalosa dos Doze CésaresSalambôO crime do Padre Amaro — enfim, dezenas de títulos de uma coleção estapafúrdia, cujo único ponto em comum era o medo de passarmos o resto da vida sem orelhas — e hoje penso que li tudo o que ele queria disfarçadamente que eu lesse, embora à custa de sobressaltos e suores frios.
Na área proibida, não pode deixar de ser feita uma menção aos pais de meu pai, meus avós João e Amália. João era português, leitor anticlerical de Guerra Junqueiro e não levava o filho muito a sério intelectualmente, porque os livros que meu pai escrevia eram finos e não ficavam em pé sozinhos. “Isto é merda”, dizia ele, sopesando com desdém uma das monografias jurídicas de meu pai. “Estas tripinhas que não se sustentam em pé não são livros, são uns folhetos.” Já minha avó tinha mais respeito pela produção de meu pai, mas achava que, de tanto estudar altas ciências, ele havia fi cado um pouco abobalhado, não entendia nada da vida. Isto foi muito bom para a expansão dos meus horizontes culturais, porque ela não só lia como deixava que eu lesse tudo o que ele não deixava, inclusive revistas policiais oficialmente proibidas para menores. Nas férias escolares, ela ia me buscar para que eu as passasse com ela, e meu pai fi cava preocupado.
— D. Amália — dizia ele, tratando-a com cerimônia na esperança de que ela se imbuísse da necessidade de atendê-lo —, o menino vai com a senhora, mas sob uma condição. A senhora não vai deixar que ele fique o dia inteiro deitado, cercado de bolachinhas e docinhos e lendo essas coisas que a senhora lê.
— Senhor doutor — respondia minha avó —, sou avó deste menino e tua mãe. Se te criei mal, Deus me perdoe, foi a inexperiência da juventude. Mas este cá ainda pode ser salvo e não vou deixar que tuas maluquices o infelicitem. Levo o menino sem condição nenhuma e, se insistes, digo-te muito bem o que podes fazer com tuas condições e vê lá se não me respondes, que hoje acordei com a ciática e não vejo a hora de deitar a sombrinha ao lombo de um que se atreva a chatear-me. Passar bem, Senhor doutor. E assim eu ia para a casa de minha avó Amália, onde ela comentava mais uma vez com meu avô como o filho estudara demais e ficara abestalhado para a vida, e meu avô, que queria que ela saísse para poder beber em paz a cerveja que o médico proibira, tirava um bolo de dinheiro do bolso e nos mandava comprar umas coisitas de ler — Amália tinha razão, se o menino queria ler, que lesse, não havia mal nas leituras, havia em certos leitores. E então saíamos gloriosamente, minha avó e eu, para a maior banca de revistas da cidade, que fi cava num parque perto da casa dela e cujo dono já estava acostumado àquela dupla excêntrica. Nós íamos chegando e ele perguntava:
— Uma de cada?
— Uma de cada — confirmava minha avó, passando a superintender, com os olhos brilhando, a colheita de um exemplar de cada revista, proibida ou não proibida, que ia formar uma montanha colorida deslumbrante, num carrinho de mão que talvez o homem tivesse comprado para atender a fregueses como nós. — Mande levar. E agora aos livros!
Depois da banca, naturalmente, vinham os livros. Ela acompanhava certas coleções, histórias de “Raffles, Arsène Lupin”, Ponson du Terrail, Sir Walter Scott, Edgar Wallace, Michel Zevaco, Emilio Salgari, os Dumas e mais uma porção de outros, em edições de sobrecapas extravagantemente coloridas que me deixavam quase sem fôlego. Na livraria, ela não só se servia dos últimos lançamentos de seus favoritos, como se dirigia imperiosamente à seção de literatura para jovens e escolhia livros para mim, geralmente sem ouvir minha opinião — e foi assim que li Karl May, Edgar Rice Burroughs, Robert Louis Stevenson, Swift e tantos mais, num sofá enorme, soterrado por revistas, livros e latas de docinhos e bolachinhas, sem querer fazer mais nada, absolutamente nada, neste mundo encantado. De vez em quando, minha avó e eu mantínhamos tertúlias literárias na sala, comentando nossos vilões favoritos e nosso herói predileto, o Conde de Monte Cristo – Edmond Dantès! – como dizia ela, fremindo num gesto dramático. E meu avô, bebendo a cerveja escondido lá dentro, dizia “ai, ai, esses dois se acham letrados, mas nunca leram o Guerra Junqueiro”.
De volta à casa de meus pais, depois das férias, o problema das leituras compulsórias às vezes se agravava, porque meu pai, na certeza (embora nunca desse ousadia de me perguntar) de que minha avó me tinha dado para ler tudo o que ele proibia, entrava numa programação delirante, destinada a limpar os efeitos deletérios das revistas policiais. Sei que parece mentira e não me aborreço com quem não acreditar (quem conheceu meu pai acredita), mas a verdade é que, aos doze anos, eu já tinha lido, com efeitos às vezes surpreendentes, a maior parte da obra traduzida de Shakespeare, O elogio da loucuraAs décadas de Tito LívioD. Quixote (uma das ilustrações de Gustave Doré, mostrando monstros e personagens saindo dos livros de cavalaria do fidalgo, me fez mal, porque eu passei a ver as mesmas coisas saindo dos livros da casa), adaptações especiais do Fausto e da Divina comédia, a Ilíada, a Odisseia, vários ensaios de Montaigne, Poe, Alexandre Herculano, José de Alencar, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Dickens, Dostoievski, Suetônio, os Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola e mais não sei quantos outros clássicos, muitos deles resumidos, discutidos ou simplesmente lembrados em conversas inflamadas, dos quais nunca me esqueço e a maior parte dos quais faz parte íntima de minha vida.
Fico pensando nisso e me pergunto: não estou imaginando coisas, tudo isso poderia ter realmente acontecido? Terei tido uma infância normal? Acho que sim, também joguei bola, tomei banho nu no rio, subi em árvores e acreditei em Papai Noel. Os livros eram uma brincadeira como outra qualquer, embora certamente a melhor de todas. Quando tenho saudades da infância, as saudades são daquele universo que nunca volta, dos meus olhos de criança vendo tanto que entonteciam, dos cheiros dos livros velhos, da navegação infinita pela palavra, de meu pai, de meus avós, do velho casarão mágico de Aracaju.
Texto extraído do livro Um brasileiro em Berlim (Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, pp. 105-112). Fonte: Revista Na ponta do lápis (ano VII, número 18, junho de 2008, p.22)

terça-feira, 19 de maio de 2015

Memórias Literárias - Texto 1

Parecida mas diferente
Zélia Gattai
O pai de Zélia Gattai costumava contar a história de como sua família havia vindo da Itália para o Brasil. Uma vez, quando ele narrava a viagem dos Gattai - que era o nome da família de seu pai -, Zélia, então menina, observou que Eugênio, seu avô materno, escutava atentamente. Então, pediu a ele que também contasse a história da família da mãe, os Da Col.

Vovô veio da Itália com toda a família, contratado como colono para colher café numa fazenda em Cândido Mota, em São Paulo. Nona Pina passou a viagem toda rezando, pedindo a Deus que permitisse chegarem com vida em terra. Tinha verdadeiro pavor de que um dos seus pudesse morrer em alto-mar e fosse atirado aos peixes. Carolina ressentiu-se muito da viagem, estranhou a alimentação pesada do navio, adoeceu, mas desembarcaram todos vivos no porto de Santos.

A família fora contratada por intermédio de compatriotas do Cadore, chegados antes ao Brasil. Diziam viver satisfeitos aqui e entusiasmavam os de lá através de cartas tentadoras: "Venham! O Brasil é a terra do futuro, a terra da 'cucagna'... pagam bom dinheiro aos colonos, facilitam a viagem..."

Com os Da Col, no mesmo navio, viajaram outras famílias da região, todos na mesma esperança de vida melhor nesse país promissor. Viajaram já contratados, a subsistência garantida.

Em Santos, eram aguardados por gente da fazenda, para a qual foram transportados, comprimidos como gado num vagão de carga.

Ao chegar à fazenda, Eugênio Da Col deu-se conta, em seguida, de que não existia ali aquela "cucagna", aquela fartura tão propalada. Tudo que ele idealizara não passava de fantasia; as informações recebidas não correspondiam à realidade: o que havia, isto sim, era trabalho árduo e estafante, começando antes do nascer do sol; homens e crianças cumpriam o mesmo horário de serviço. Colhiam café debaixo de sol ardente, os três filhos mais velhos os acompanhando, sob a vigilância de um capataz odioso. Vivendo em condições precárias, ganhavam o suficiente para não morrer de fome.

A escravidão já fora abolida no Brasil, havia tempos, mas nas fazendas de café seu ranço perdurava.

Notificados, certa vez, de que deviam reunir-se, à hora do almoço, para não perder tempo de trabalho, junto a uma frondosa árvore, ao chegar ao local marcado para o encontro os colonos se depararam com um quadro deprimente: um trabalhador negro amarrado à árvore. A princípio, Eugênio Da Col não entendeu nada do que estava acontecendo, nem do que ia acontecer, até divisar o capataz que vinha se chegando, chicote na mão. Seria possível, uma coisa daquelas? Tinham sido convocados, então, para assistir ao espancamento do homem? Não houve explicações. Para quê? EstavaCLARO: os novatos deviam aprender como se comportar; quem não andasse na linha, não obedecesse cegamente ao capataz, receberia a mesma recompensa que o negro ia receber. Um exemplo para não ser esquecido.

O negro amarrado, suando, esperava a punição que não devia tardar; todos o fitavam, calados.

De repente, o capataz levantou o braço, a larga tira de couro no ar, pronta para o castigo. Então era aquilo mesmo? Revoltado, cego de indignação, o jovem colono Eugênio Da Col não resistiu; não seria ele quem presenciaria impassível ato tão covarde e selvagem.

Impossível conter-se!

Com um rápido salto, atirou-se sobre o carrasco, arrebatando-lhe o látego das mãos.

Apanhado de surpresa, diante da ousadia do italiano, perplexo, o capataz acovardou-se. O chicote, sua arma, sua defesa a garantir-lhe a valentia, estava em poder do "carcamano"; valeria a pena reagir? Revoltado, fora de si, esbravejando contra o capataz em seu dialeto dos Montes Dolomitas, o rebelde pedia aos companheiros que se unissem para defender o negro. Todos o miravam calados. Será que não compreendiam suas palavras, seus gestos? Certamente sim, mas ninguém se atrevia a tomar uma atitude frontal de revolta. Católico convicto, ele fazia o que lhe ditava o coração, o que lhe aconselhavam os princípios cristãos...

De repente, como num passe de mágica, o negro viu-se livre das cordas que o prendiam à árvore. O capataz apavorou-se. Quem teria desatado os nós. Quem teria?

O topetudo não fora, estava ali em sua frente, gesticulando, gritando frases incompreensíveis, ameaçador, de chicote em punho... O melhor era desaparecer o quanto antes, rapidamente: "esses brutos poderiam reagir contra ele. A prudência mandava não facilitar".

Nessa mesma tarde, a família Da Col foi posta na estrada, porteira trancada para "esses rebeldes imundos". Estavam despedidos. Nem pagaram o que lhes deviam. "Precisavam ressarcir-se do custo do transporte de Santos até a fazenda..." E fim.

Pela estrada deserta e infinita, seguiu a família, levando as trouxas de roupas e alguns pertences que puderam carregar, além da honradez, da coragem e da fé em Deus.



Anarquistas, graças a Deus. 11ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1986.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Galerinha,

Sobre as avaliações dos livros que conversamos em sala.

São duas atividades avaliativas (leiam com atenção)
8F1

1- Prazo máximo dia 22/04 (atividade em grupo)

Vocês devem apresentar nesse dia um das opções abaixo:

Representação teatral de uma cena ou cenas contemplando o livro. (duração de 10 minutos)
Para isso, vocês precisam definir funções, ou seja, precisam de um diretor, de atores, de quem cuide do som, dos slides, da maquiagem e do figurino, todos devem ter uma função específica.
Lembram do teatro do Chapeuzinho vermelho e das mil e uma noites? Mesmo formato! Tá facil!

Apresentação: Nesse caso vocês podem apresentar um power point ou similar para ser explicado para a turma, o prazo é de aproximadamente 5 entre 10 miutos. Sejam claros e objetivos, escolham quem vai apresentar, quem vai fazer os slides, se quiserem podem inserir música de fundo e pequenos vídeos de 1 ou 2 minutos para representar os personagens, ou um bate papo informal sobre o livro tipo aqueles vídeos de youtube das pessoas comentando o livro, imagens ou fotos também caracterizando, tragam informações sobre o livro, o autor e personagens, lembrando que vocês sabem apresentar  recomendar o livro pois fizemos isso em sala. Tragam em pen drive.

Vídeos - O vídeo deverá estar em pen drive e deve ser o máximo auto explicativo com abertura legendas com o nome dos participantes e suas funções, vocÊs podem representar no vídeo ou ensaiar um bate papo informal entre vocês, ou ainda naquele estilo youtube de comentar os livros. Dei algumas ideias na sala paa vocês.

A ordem da apresentação é: representação, apresentação e vídeo. O vídeo obrigatoriamente deve estar em pen drive pois precisarei levar caso não haja tempo para exibição na sala.

O prazo final da leitura  do s livros ficou dia 15/04.
Lembrem-se que a atividade vale nota, e que já fizemos: leitura em sala, atividade do blog, cartazes e exercícios do blog que devem estar no caderno de vocês, não em folha separada e nem mesmo me entregar. Pois passarei para ver se fizeram. Quem postou no blog não precisa pois tenho registrado tudo isso lá. Agora quem deixou de fazer alguma atividade deve começar a fazer antes da nota.

As datas:
8F1 apresentação dia 22/04

2 - Atividade do livro (individual)
Os livros:
O Cavaleiro das palavras
O sol é testemunha
Perseguição

Todos os livros possuem uma ficha de leitura que vocês devem preencher e entregar individualemnte para o professor até o dia 22/04

Agora vamos as perguntas:

Professor eu não tenho o livro?
Deveria ter, pois como você vai fazer o primeiro trabalho lá acima?
Caso não tenhas,  estás em um grupo,  tire cópia do seu colega das perguntas e preenchas as respostas individualmente será dado nota zero para quem colar.
Professor, não vi a postagem sobre essa atividade no blog e no Unimestre pois não tenho acesso.
Já deu tempo, um trimestre inteiro para isso, mesmo assim ainda tens o teu colega do grupo para te dar essa informação e ainda tirar as dúvidas comigo na sala, no corredor, ou ainda via faceboke ou em qualquer momento antes da entrega da avaliação.
Cada um deve entregar um trabalho manuscrito e não digitado, por isso,  se não tiver o caderno de perguntas e repostas, ou seja, o questionário no livro que você comprou ou pediu emprestado, tire cópia dele em branco do seu colega e depois responda de forma manuscrita.
Prazo de entrega dia 22/04 (individual)

Tudo explicado, como sempre, espero vocês em sala.



domingo, 5 de abril de 2015

Fuga ao redor do quarteirão - Passeando entre os gêneros reportagens e letras de música.



Você vai ler duas reportagens do suplemento semanal Folhateen, do jornal Folha de São Paulo, além de letras de músicas que abordam determinados assuntos, Quais os temas abordados neles? Você eve ler esses textos, reponder no seu caderno e levar para discutir em sala.

São Paulo, segunda-feira, 28 de março de 2005 
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FAMÍLIA 

Fugir de casa é uma idéia que passa pela cabeça de muitos adolescentes quando as obrigações familiares pesam; conheça a experiência de alguns jovens que quebraram a cara na aventura 

Fuga ao redorALESSANDRA KORMANN 
DA REPORTAGEM LOCAL
"Dezessete anos e fugiu de casa às 7h da manhã do dia errado..." A história da música "Natasha", do Capital Inicial, que conta as aventuras da garota que "deixou para trás os pais e o namorado", poderia ser a trilha perfeita para milhares de adolescentes que desaparecem de casa todos os anos. Da mesma forma que na canção, normalmente eles também dançam. A desilusão é quase imediata e a maioria acaba voltando para casa.
Foi o caso de Renata (nome fictício), 14, que mora em uma pequena cidade de Minas Gerais. No ano passado, com 13 anos, ela saiu de casa no meio da noite com mais duas amigas de 15 anos e pegou um ônibus para o Rio de Janeiro. "Eu estava cansada da rotina, da minha mãe me prendendo."
Ao sair, deixou um bilhete dizendo que não ia mais voltar. "Fomos com pouco dinheiro, não nos importávamos de passar fome. A gente queria chegar em uma cidade de praia e viver lá", conta.
No entanto, a viagem acabou antes mesmo de começar: seus pais rapidamente acionaram a polícia, que parou o ônibus no Estado do Rio. Depois de algumas horas, os pais das garotas foram buscá-las.
A vontade de viver um "amor proibido" levou Gabriella Schiavinato, 19, a fugir de casa aos 15. O pai dela não aceitava o namoro. "Não gostava dos amigos dele, era uma galera "da pesada". Ele até me mandou passar as férias inteiras na praia para me afastar dele. Mas, na primeira vez que vim a São Paulo, saí de madrugada para ficar com ele e fomos morar juntos."
Depois de um ano e meio, ela voltou para casa após uma briga por ciúmes. "Vi que meu pai tinha razão. Hoje eu me arrependo de ter fugido, não faria isso de novo", diz.
O velho truque de colocar travesseiros sob as cobertas da cama para enganar a família foi o aplicado por Gilda (nome fictício), 18, há duas semanas, quando fugiu de casa para sair à noite com os amigos.
"Meus pais nunca deixam, só quando é uma festa especial, e mesmo assim tenho que avisar com meses de antecedência."
Quando viu que os pais estavam dormindo, arrumou a cama com travesseiros embaixo da coberta e saiu na ponta dos pés. "Curti muito, mas com medo de eles perceberem. Quando voltei, estava tudo como eu havia deixado. Ainda bem!".
Danilo Eidy, 23, levava uma vida normal em Brasília há quatro anos: não tinha problemas em casa, estava na faculdade, namorava, ganhava mesada e costumava pegar o carro da mãe emprestado.
"Eu simplesmente fui. Tive a idéia, arrumei a mala, comprei um guia, apontei para uma cidade qualquer e comprei uma passagem de ônibus para lá. Eu queria ver aonde o destino ia me levar."
Depois de três meses circulando por cidades de Minas Gerais, trabalhando na montagem de um circo e tocando violão em bares, ele foi localizado pela família com a ajuda da polícia. Nesse dia, conversou por telefone com os pais e, a partir daí, começou a ligar outras vezes para casa.
"Um dia, minha tia disse que queria me buscar, e eu aceitei. Quando ela chegou, alugou um quarto no melhor hotel da cidade e finalmente tomei um banho decente. Eu levava uma vida desconfortável, e o juízo acabou voltando. Pensando bem, era melhor estar em casa, fazendo faculdade, do que tocando violão para desconhecidos. Quando cheguei em casa, todos me abraçaram. Depois, me fizeram a pergunta que não consigo responder: "Por que fugiu?'"
Para entender as causas que levam os jovens a fugir, ajudar a solucionar os casos de desaparecimento e dar suporte psicológico para essas famílias foi criado o projeto Caminho de Volta, uma parceria do Centro de Ciências Forenses da Faculdade de Medicina da USP com a Secretaria Especial dos Direitos Humanos e com o DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa). Segundo o projeto, cerca de 30 mil crianças e adolescentes desaparecem de casa a cada ano (número que inclui as fugas). Destes 80% voltam.
"Estamos fazendo um estudo epidemiológico com os familiares dos jovens desaparecidos e com outras famílias do mesmo bairro e classe social para tentar descobrir quais são os motivos de fuga que dizem respeito ao próprio adolescente", afirma a coordenadora-geral Gilka Gattas.
Para o psicanalista Martin Aguirre, terapeuta familiar do Instituto A Casa, as fugas na classe média e alta, em geral, são motivadas por dois fatores: dificuldade de relacionamento familiar e vontade de conquistar a independência. "O adolescente que foge tenta atingir um grau de liberdade que só é conquistado com a maturidade, pois esperar a hora certa significa ter de se submeter a diversas regras familiares e sociais."
Para a psicóloga Leila Cury Tardivo, professora de psicologia clínica da USP, o problema é que essa vontade normalmente vem acompanhada da falta de consciência das obrigações que a vida adulta acarreta.
"Essa sensação de não-pertencimento à família é muito comum. Mas, quando há uma fuga, isso revela uma impossibilidade de buscar o afastamento de forma mais saudável. Muitas vezes eles se expõem a perigos sem o menor preparo", diz ela.

disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm2803200511.htm

Natasha

Capital Inicial

Tem 17 anos e fugiu de casa
Às sete horas na manhã no dia errado
Levou na bolsa umas mentiras pra contar
Deixou pra trás os pais e o namorado

Um passo sem pensar
Um outro dia, um outro lugar

Pelo caminho, garrafas e cigarros
Sem amanhã, por diversão, roubava carros
Era Ana Paula, agora é Natasha
Usa salto quinze e saia de borracha

Um passo sem pensar
Um outro dia, um outro lugar

O mundo vai acabar
E ela só quer dançar
O mundo vai acabar
E ela só quer dançar, dançar, dançar

Pneus de carros cantam
Thuru, Thuru, Thuru, Thuru ( 4x )

Tem sete vidas mas ninguém sabe de nada
Carteira falsa com a idade adulterada
O vento sopra enquanto ela morde
Desaparece antes que alguém acorde

Um passo sem pensar
Um outro dia, um outro lugar

Cabelo verde, tatuagem no pescoço
Um rosto novo, um corpo feito pro pecado
A vida é bela, o paraíso é um comprimido
Qualquer balaco ilegal ou proibido

Um passo sem pensar
Um outro dia, um outro lugar

O mundo vai acabar
E ela só quer dançar
O mundo vai acabar
E ela só quer dançar, dançar, dançar

O mundo vai acabar
E ela só quer dançar
O mundo vai acabar
E ela só quer dançar, dançar, dançar

Pneus de carros cantam
Thuru, Thuru, Thuru, Thuru

A canção "Natasha" da banda Cpaital Inicial foi uma das faixas de maior sucesso do álbum Acústico MTV - Capital Inicial lançado em 2000, em CD e DVD. Com canções ao vivo, o disco  consagrou o retorno do grupo às paradas de sucesso do rock nacional no novo milênio.

Interpretação de texto

1) Quais os motivos das fugas, segundo os estudos da equipe do Instituto A Casa?

2) Os motivos apontados pelos adolescentes e jovens, que têm seus depoimentos na reportagem, coincidem com os apontados pelos estudos do Instituto? Explique.

3) Releia o trecho a seguir, observando o verbo destacado.

"Segundo o projeto, cerca de 30 mil crianças e adolescentes desaparecem de casa a cada ano (número que inclui as fugas)

O uso do verbo desaparecer e o comentário entre parênteses podem nos levar  a pensar que nem todas as 30 mil crianças, e adolescentes fugiram de casa. Quais poderima ser outra razões de não estarem  mais com suas famílias?

4) Em seu depoimento Gilda fala sobre a experiência de ter saído  para uma festa sem o conhecimento dos pais. Quais podem ser os riscos de os pais não saberem onde os filhos estão?

5) A que perigos você acredita que a psicóloga Leila Cury se refere qunado declara: " Muitas vezes eles (os adolescentes)  se expõe a perigos sem o menor preparo?

6) Observe um trecho da letra da canção Pais e filhos da Legião Urbana, que assim como a reportagem, explora o conflito entre pais e filhos:

"Você me diz que seus pais não entendem
Mas você não entende seus pais.
Você culpa seus pais por tudo
E isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser quando você crescer?

Legião urbana - banda de rock que surgiu em Brasília no ano de 1982 e terminou em 1996 após a morte do líder e vocalista Renato Russo. Vinda de uma geração influenciada pelo punk, é uma das bamdas brasileiras mais respeitadas pelo público  e crítica e vendeu mais de 20 milhões de discos.
Com letras contudentes que criticam  a plítica  e a sociedade, ou mais líricas que falam poeticamnte sobre o amor e a solidão, as canções da Legião, como Eduardo e Mônica e Pais e filhos, são tocadas até hoje nas rádios de todo o país.

7) o que você acha do que o eu-lírico diz? VocÊ concorda ou discorda dele? Explique o seu ponto de vista.

Outra letra de canção que fala de forma bem-humorada, sobre um jovem que, assim como D.E., tem uma boa relação com seus pais. Leia a letra e discuta com os colegas.

Rebelde sem causa
Meus dois pais me tratam muito bem
(O que é que você tem que não fala com ninguém?)
Meus dois pais me dão muito carinho
(Então porque você se sente sempre tão sozinho?)
Meus dois pais me compreendem totalmente
(Como é que cê se sente, desabafa aqui com a gente!)
Meus dois pais me dão apoio moral
(Não dá pra ser legal, só pode ficar mal!)
MAMA MAMA MAMA MAMA
(PAPA PAPA PAPA PAPA)
Minha mãe até me deu essa guitarra
Ela acha bom que o filho caia na farra
E o meu carro foi meu pai que me deu
Filho homem tem que ter um carro seu
Fazem questão que eu só ande produzido
Se orgulham de ver o filhinho tão bonito
Me dão dinheiro prá eu gastar com a mulherada
Eu realmente não preciso mais de nada
Meus pais não querem
Que eu fique legal
Meus pais não querem
Que eu seja um cara normal
Não vai dar, assim não vai dar
Como é que eu vou crescer sem ter com quem me revoltar
Não vai dar, assim não vai dar
Pra eu amadurecer sem ter com quem me rebelar
Roger Moreira.
Ultraje a rigor
A banda é um marco no cenário do rock brasileiro. Criada no início dos anos 1980, em São Paulo, e liderada pelo vocalista Roger Moreira, consagrou-se nacionalemente com o álbum Nós vamos invadir  sua praia que trouxe outros hits como Inútil, Mim quer tocar e Rebelse sem causa, que você leu acima.

BRIGAS ENTRE PAIS E FILHOS ADOLESCENTES"

Os adolescentes trazem em seus relatos muito sofrimento diante das freqüentes discussões que estabelecem com seus pais neste período de vida. Eles se queixam da invasão de privacidade, da autoridade, do excesso de preocupação com as drogas, sexualidade e liberdade, outros reclamam da omissão de seus pais que parecem ser permissivos, não se importando com eles.
Comentam sobre as mudanças na qualidade da relação que antes havia quando eram crianças, remetem-se ao sentimento de perda e a certo afastamento, seja afetivo ou físico.
Os pais, antes idealizados, passam a ser, aparentemente, figuras odiadas, desvalorizadas, com quem estabelecem os mais intensos confrontos. No entanto, estes sentimentos de raiva e ódio revelam a curiosa faceta da necessidade do adolescente de se diferenciar para adquirir sua própria identidade.
Esse movimento, proporcionado pelas brigas, tem como fundo, o grande mal-entendido proposto pela tarefa da educação, que visa o respeito às regras sociais e a aquisição de autonomia. Para tanto, são necessários a separação e um posicionamento e até mesmo uma contraposição perante os referenciais parentais para que ocupe um lugar.
A adolescência é uma criação da cultura, diz de um período de vida em que o sujeito refaz e reedita suas crenças, seus valores e seus modelos. Para que isso aconteça, o adolescente busca novos paradigmas em outros grupos, que não o familiar.
Os modelos lhe servirão para “testar” novas formas de existência. Assim, o jovem ingressa em grupos com crenças e códigos próprios, como os emos, os nerds, os góticos, os populares, os rebeldes, etc. Em alguns casos, esta situação pode parecer caricata e exagerada, tamanha a necessidade de diferenciação de alguns. Porém, esses grupos são funcionais, permitem a identificação com outros ideais e valores e proporcionam o sentimento de pertencimento no mundo afora.
Aos pais é importante saber que é um momento bastante delicado, mas extremamente necessário, para que o filho se torne um adulto com opiniões e pensamentos que lhe sejam próprios.
Para muitos pais é um período de intensa angústia, pois o adolescente pode ser bastante ativo no seu desejo de adquirir autonomia. Os questionamentos são freqüentes, há um conflito dos pais que querem que o filho cresça, ao mesmo tempo, em que temem as conseqüências da autonomia. Muitos pais se sentem atacados e de fato desvalorizados e sofrem pelo sentimento de que não são mais os “heróis” e “heroínas” de sua prole.
É imprescindível saber dosar e escutar o que esta fase representa, tanto para o adolescente como para os pais. A turbulência pode cegar e ensurdecer aqueles que não estão atentos, assim toda a roupagem vestida pelo adolescente pode desviar a atenção dos pais para a verdadeira razão da existência dela, que é de possibilitar um grande crescimento diante do questionamento daquilo que foi transmitindo. Há o confronto com os referenciais, pois estes existem. Questionar não significa que não tenham valor, mesmo que o adolescente diga isso.

http://www.palavraescuta.com.br/perguntas/brigas-entre-pais-e-filhos-adolescentes

Interpretação de texto
1) Levando em conta a leitura desse trechos do artigo, explique o sentido do título da letra da canção Rebelde sem causa. Lembre-se de retomar alguns fragmentos.
2) Considerando tudo o que você leu e discutiu com seus colegas até aqui, você acha que a relação entre os adolescentes e os pais ou familiares mais velhos será sempre de conflito? Explique seu ponto de vista?
3) Você já tinha pensado antes sobre o que esta fase da sua vida pode representar para seus pais? Comente a sua resposta.




domingo, 15 de março de 2015

Ler, ouvir, assistir e interagir.

Pessoal, esse será o tema dos cartazes.

Preciso que aqui vocês coloquem os grupos e seus integrantes e qual o tema e título de cada equipe aqui no blog, peço aos responsáveis de cada grupo que o façam.

Caprichem nos cartazes, imagens e textos, formato do letreiro também, pois ele valerá nota individual e será exposto no mural do corredor.

Terça para algumas turmas dia 17/03 e quarta-feira dia 18/03 vocês deverão finalizar e apresentar em sala e continuaremos com as demais leituras, ou seja, nesse dia para aqueles que cumprirem ou não será tarefa encerrada.

Abraços!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O conto e a crônica: Diferenças em dois textos sobre bullying e saúde.

        No questionário da postagem anterior havia uma pergunta se Machado de Assis 
Machado de Assis havia publicado crônicas além de contos e romances. A resposta segue abaixo com a biografia do autor.

          Joaquim Maria Machado de Assis é considerado um dos mais importantes escritores da literatura brasileira. Nasceu no Rio de Janeiro em 21/6/1839, filho de uma família muito pobre. Mulato e vítima de preconceito, perdeu na infância sua mãe e foi criado pela madrasta. 
          Superou todas as dificuldades da época e tornou-se um grande escritor. Na infância, estudou numa escola pública durante o primário e aprendeu francês e latim. Trabalhou como aprendiz de tipógrafo, foi revisor e funcionário público. Publicou seu primeiro poema intitulado Ela, na revista Marmota Fluminense. 
           Trabalhou como colaborador de algumas revistas e jornais do Rio de Janeiro. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de letras e seu primeiro presidente. Podemos dividir as obras de Machado de Assis em duas fases: 
    Na primeira fase (fase romântica) os personagens de suas obras possuem características românticas, sendo o amor e os relacionamentos amorosos os principais temas de seus livros. Desta fase podemos destacar as seguintes obras: Ressurreição (1872), seu primeiro livro, A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878).
         Na Segunda Fase (fase realista), Machado de Assis abre espaços para as questões psicológicas dos personagens. É a fase em que o autor retrata muito bem as características do realismo literário. Machado de Assis faz uma análise profunda e realista do ser humano, destacando suas vontades, necessidades, defeitos e qualidades. Nesta fase destaca-se as seguintes obras: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1892), Dom Casmurro (1900) e Memorial de Aires (1908).
          Machado de Assis também escreveu contos, tais como: Missa do Galo, O Espelho e O Alienista. Escreveu diversos poemas, crônicas sobre o cotidiano, peças de teatro, críticas literárias e teatrais. Machado de Assis morreu de câncer, em sua cidade natal, no ano de 1908.

Relação das obras:

Romances
Ressurreição - 1872 
A mão e a luva - 1874 
Helena - 1876 
Iaiá Garcia - 1878 
Memórias Póstumas de Brás Cubas - 1881 
Quincas Borba - 1891 
Dom Casmurro - 1899 
Esaú e Jacó - 1904 
Memorial de Aires - 1908 

Poesia 
Crisálidas
Falenas
Americanas
Ocidentais
Poesias completas

Contos
A Carteira 
Miss Dollar 
O Alienista 
Noite de Almirante
O Homem Célebre
Conto da Escola 
Uns Braços 
A Cartomante 
O Enfermeiro
Trio em Lá Menor
Missa do Galo 

Teatro
Hoje avental, amanhã luva - 1860 
Desencantos - 1861 
O caminho da porta, 1863 
Quase ministro - 1864
Os deuses de casaca - 1866 
Tu, só tu, puro amor - 1880 
Lição de botânica - 1906 


       Agora você percebeu que o grande Machado explorou vários gêneros literários.Também foi prometido discutir o tema bullying, assunto do último conto, para isso, iremos também responder a questão da diferença entre crônica e contos, gêneros parecidos, mas que guardam suas particularidades.

Texto 1
                                                                  Bullying
Ronnie Vitorino

      Pequenino, vesgo, franzino, orelhudinho, dentuço e com voz estridente. Praticamente o Cascatinha (personagem do Geraldo Freire de Castro Filho. Não sabe quem é? Dá um Google). Dessa maneira muitos cresceram, desenvolveram-se, continuaram com o mesmo arquétipo fenotípico e, alguns outros, nunca ligaram de ser como eram. Apenas continuaram a vida.
      O fato é que o tal do bullying está na moda. Tanto em praticar quanto em sofrer. Na minha época não existia isso. Era-se zoado e pronto. Eu era uma dessas pessoas que enfrentavam, diuturnamente, todos “brincando” com minhas “deficiências”. Na verdade, até hoje tiram um sarro ferrenho de mim.
- Meu, que coisa mais de donzela essa de você escrever crônicas de amor.
- Mas, cara...
- É isso mesmo! Vira homem!
- Pô! Eu gosto. Elas gostam.
- Elas dizem que gostam, porque sua alma é muito feminina. Já percebeu que com tudo você fica sensibilizado, tudo chora?
- Não é assim também, vai?
- É assim!
      O problema daqueles que te aplicam o bullying, é que acham que sabem mais da sua vida do que você mesmo. E, em alguns casos, você se deixa levar por isso: Sabe tão pouco de si, que acredita em qualquer balela que lhe falam.
      Sócrates foi visionário no aspecto do bullying: “Conhece-te a ti mesmo”! Quem sabe de todas as suas qualidades, tem subsídios para enfrentar suas limitações e aquilo que lhe imputam falsamente. Afinal, sabe encarar o mundo de frente. Tem alicerces freudianos para dizer: Pare de se projetar em mim.
      Ter personalidade para enfrentar, de frente, uma agressão física ou psíquica, é tarefa árdua e constante. Mas, podem se fazer de vítimas, fugindo pela tangente e dizer: É complicado. Porém, mais complicado, é você ficar com suas neuras até a meia idade achando-se um lixo, sendo que tem predicados e adjetivos ímpares.
      Saiba que o seu maior crítico é você mesmo. E é só você quem sabe o que mais lhe aflige. Só você sabe do seu saldo negativo, só você sabe como recuperar a amada. O seu mundo depende só de você, das suas ações, da sua vontade de vencer as próprias omissões e superar as emoções apaixonadas.
      Quando eu era mais novo, uma maneira de bullying era dar apelidos. Humilhar a pessoa e depreciá-la com nomes piores do que xingar a mãe. Tive vários, mas nenhum pegou, mesmo porquê, meu nome já é um apelido. Será que meus pais cometeram bullying de nascença comigo? Enfim...
Inclusive, sofri muito disso na minha casa. Como filho caçula e último neto, eu só apanhava, sempre estava errado e me achavam mais um no meio de milhões. Enfim, um desacreditado na vida.
      Com o tempo e um pouco de amadurecimento, percebi, à duras penas, que não deveria fazer qualquer coisa para provar nada a ninguém, mas só a mim mesmo. É aquela coisa do Zeca Pagodinho: Se eu quiser beber, eu bebo...
A vida é muito curta, exceção a do Niemayer, para se preocupar com o que os outros pensam, falam e agem a respeito de você.
Branco, negro, malhado, albino. Obeso, magrelo, gordinho ou tubo de ensaio. Limitado, normal ou superdotado(!). Não importa. Suas ações definem quem você é.
Por isso e, por tudo o mais que venha acontecer na sua vida, não deixe que o seu medo de vencer, seja maior do que sua possível derrota.


Explorando o gênero

O que é Crônica:


Crônica é uma narrativa histórica que expõe os fatos seguindo uma ordem cronológica. A palavra crônica deriva do grego "chronos" que significa "tempo".
A crônica é uma forma textual no estilo de narração que tem por base fatos que acontecem em nosso cotidiano. Por este motivo, é uma leitura agradável, pois o leitor interage com os acontecimentos e por muitas vezes se identifica com as ações tomadas pelas personagens.

Você já deve ter lido algumas crônicas, pois estão presentes em jornais, revistas e livros. Além do mais, é uma leitura que nos envolve, uma vez que utiliza a primeira pessoa e aproxima o autor de quem lê. Como se estivessem em uma conversa informal, o cronista tende a dialogar sobre fatos até mesmo íntimos com o leitor.

O texto é curto e de linguagem simples, o que o torna ainda mais próximo de todo tipo de leitor e de praticamente todas as faixas etárias. A sátira, a ironia, o uso da linguagem coloquial demonstrada na fala das personagens, a exposição dos sentimentos e a reflexão sobre o que se passa estão presentes nas crônicas.

Como exposto acima, há vários motivos que levam os leitores a gostar das crônicas, mas e se você fosse escrever uma, o que seria necessário? Vejamos de forma esquematizada as características da crônica:

• Narração curta;
• Descreve fatos da vida cotidiana;
• Pode ter caráter humorístico, crítico, satírico e/ou irônico;
• Possui personagens comuns;
• Segue um tempo cronológico determinado;
• Uso da oralidade na escrita e do coloquialismo na fala das personagens;
• Linguagem simples.

Portanto, se você não gosta ou sente dificuldades de ler, a crônica é uma dica interessante, pois possui todos os requisitos necessários para tornar a leitura um hábito agradável!

Texto 2

 NÃO PENSE NISSO JORGE
MOACYR SCLIAR

Estou ficando velho, Zilda. Velho e fraco. Sinto que não vou durar muito.
- Não pensa nisto, Jorge. Pensa nas coisas boas da vida.
- Estas dores no estômago. Para mim isto é câncer. O médico diz que não, mas acho que ele está me enganando. Para mim é câncer, Zilda.
- Não pensa nisto, Jorge. Pensa nos momentos que vivemos juntos.
- Eu sei que é câncer, Zilda. Já vi muita gente morrer dessa doença. É uma morte horrível, Zilda. A gente vai se consumindo aos poucos.
- Não pensa nisto, Jorge. Pensa no teu trabalho. Pensa nos teus colegas, no chefe que gosta tanto de ti.
- Primeiro a gente emagrece. Já estou emagrecendo. Perdi cinco quilos neste ano. Aliás, como passou ligeiro este ano. Como passam ligeiro os anos. Como passam ligeiro os dias, as horas. Quando a gente vê, já é noite. Quando a gente vê, terminou o mês. Quando a gente vê, acabou a vida.
- Não pensa nisto, Jorge. Pensa na tua turma do bolão, gente alegre, divertida.
- Logo terei de me hospitalizar. E no hospital a gente vai ligeirinho, Zilda. Acho que é por causa do desamparo. O desamparo é horrível.
- Não pensa nisto, Jorge. Pensa nos teus filhos. Pensa na Rosa Helena, no Zé. Pensa no Marquinhos.
- Tenho medo de morrer, Zilda. Me envergonho disso, afinal, já vivi tanto, mas a verdade é que tenho medo de morrer. A morte é o fim, Zilda. Para mim é o fim. Não acredito na vida após túmulo. Acho que na tumba acaba tudo. A carne se desprende dos ossos, os cabelos caem, fica a caveira à mostra. Isto é a morte, Zilda. Isto é que é a morte.
- Não pensa nisto, Jorge. Pensa na tua horta. Pensa nas galinhas, Jorge. Pensa numa galinha chocando os ovos, Jorge.
- Uma galinha com câncer, Zilda?
- Por que não, Jorge, por que não.

Explorando o gênero

                                                                   O que é o conto

Ao falarmos sobre conto, logo nos reportamos com a ideia de um texto narrativo no qual predomina todos os elementos ligados a esta tipologia textual, isto é,Tempo, Espaço, Narrador, Personagens e Enredo.

Das narrativas orais dos antigos povos até a publicação em livros na realidade atual, da narrativa popular literária, o conto se aperfeiçoou muito, resultando em diversas classificações.

Desta forma, é comum encontrarmos antologias que reúnem os contos por:
- nacionalidade: Conto russo, brasileiro;
- por temas: Contos maravilhosos, fantásticos, de terror, de mistério, de ficção científica, dentre outros;
- e também por outras classificações: Conto moderno, contemporâneo, etc. 


No campo das artes, mais especificamente na Literatura, os artistas estão sempre empenhados em renovar suas formas de expressão, e em função disso, quebram certas convenções do gênero que utilizam.

De modo convencional, o conto se estrutura dos seguintes elementos: Apresentação, Complicação, Clímax e Desfecho. 

Modernamente, os contos tornaram-se mais concentrados, apoiando-se em técnicas inovadoras, como é o caso do flashback e o tempo psicológico, onde este determina o tempo ligado às emoções, às recordações vividas pelos personagens, e aquele é um recurso de voltar ao passado, uma espécie de enredo não linear.

Entre os principais contistas da atualidade cita-se: Dalton Trevisan, Moacyr Scliar, Ignácio de Loyola Brandão, Ricardo Ramos e Sérgio Santana. 


Atividades

1) O tema central do texto do conto é o mesmo da crônica? Explique.

2) Sobre o primeiro texto você já presenciou acontecer esse fato com alguém? E com você? O que você faria em um situação como essa?

3) sobre o primeiro texto, você concorda com o medo de Jorge em relação aos desamparo aos idosos? E das crianças, jovens e demais faixas de idade...acontece da mesma forma?

4) Para você qual a diferença entre saúde mental e saúde física? O que caracteriza cada uma? O que você conclui para que uma pessoa possa ter uma boa saúde mental e física?

5) Na próxima aula faremos uma exposição de contos fantásticos na escola. Atividade em grupo em que cada um fará leituras dos contos e em grupos realizaremos a confecção de cartazes. O professor irá orientar as equipes.